Produtividade

Multitasking na Liderança: o Mito que Destrói Performance

Fazer várias coisas ao mesmo tempo tornou-se, de alguma forma, um sinal de liderança. O líder que responde emails durante uma reunião, que atende chamadas entre decisões...

Sérgio Salino 3 de agosto de 2026 10 min read
Multitasking na Liderança: o Mito que Destrói Performance

Fazer várias coisas ao mesmo tempo tornou-se, de alguma forma, um sinal de liderança. O líder que responde emails durante uma reunião, que atende chamadas entre decisões críticas, que tem sempre três janelas abertas e duas conversas em paralelo — esse líder parece capaz. Parece indispensável. O problema é que a neurociência discorda desta narrativa de forma bastante clara: o multitasking, tal como o entendemos, não existe. O que existe é uma ilusão de produtividade com um custo cognitivo real, acumulado e, em muitos casos, invisível até ser tarde demais.

Este artigo não é mais um texto sobre fazer menos coisas. É uma reflexão sobre o que acontece ao cérebro de um líder que opera em modo fragmentado durante meses — e sobre por que a solução não está na força de vontade individual, mas na cultura que normaliza essa fragmentação.

O Que o Cérebro Realmente Faz Quando "Faz Tudo ao Mesmo Tempo"

Começa por aqui: o cérebro humano não processa duas tarefas cognitivas complexas em simultâneo. O que faz é alternar entre elas — rapidamente, sim, mas com um custo a cada transição. Earl Miller, neurocientista do MIT que investigou os limites do processamento paralelo, é directo neste ponto: o que chamamos de multitasking é, na prática, task switching — uma série de micro-interrupções que o cérebro executa de forma tão veloz que nos ilude sobre o que está realmente a acontecer.

Cada vez que mudas de tarefa, o cérebro precisa de desactivar o contexto anterior e activar o novo. Esse processo tem um custo neurológico mensurável — os chamados switching costs — que se traduz em erros, lentidão e degradação da qualidade do pensamento. Não é uma questão de esforço ou disciplina. É fisiologia.

A investigadora Sophie Leroy, da Universidade de Washington, acrescentou uma camada ainda mais perturbadora a esta equação com o conceito de attention residue. Quando abandonas uma tarefa para passar a outra — mesmo que voluntariamente — parte da tua atenção fica cognitivamente "presa" na tarefa anterior. Não consegues estar completamente presente na nova tarefa porque o cérebro ainda está a processar a anterior. Quanto mais exigente e incompleta era a tarefa que deixaste, maior o resíduo.

Considera um cenário típico: um director de operações que responde a emails durante uma reunião de equipa. Do ponto de vista externo, parece eficiente — está a "aproveitar o tempo". Do ponto de vista neurológico, está a fazer as duas coisas mal. Os emails recebem atenção fragmentada e cheia de resíduo da reunião; a reunião recebe atenção fragmentada e cheia do contexto dos emails. Nenhuma das duas tarefas recebe o que merecia. E a equipa, que observa tudo isto, retira as suas próprias conclusões.

A questão de fundo não é técnica — é de premissa. Enquanto tratarmos o multitasking como uma competência a desenvolver em vez de uma limitação a respeitar, continuaremos a optimizar o processo errado. Para aprofundar esta distinção entre gerir o tempo e gerir a atenção, vale a pena ler Gestão de Tempo ou Gestão de Atenção: o que Muda Tudo.

O Paradoxo do Líder Ocupado: Urgência Real vs. Urgência Percebida

O multitasking é especialmente sedutor em posições de liderança. E não por fraqueza de carácter — por pressão estrutural. A expectativa de disponibilidade permanente, a cultura de resposta imediata, a quantidade de decisões que convergem num único ponto: tudo isto cria um ambiente onde o foco profundo parece um luxo que os líderes não se podem dar.

Mas há uma distinção que raramente se faz com clareza suficiente: a diferença entre urgência percebida e urgência real. A maior parte das interrupções que fragmentam o dia de um líder não são genuinamente urgentes — são apenas imediatas. E imediato não é o mesmo que importante. A confusão entre estes dois conceitos é, em grande medida, o que alimenta o ciclo do multitasking crónico.

Gloria Mark, investigadora da UC Irvine que estuda padrões de atenção em contexto de trabalho, estima que o tempo médio de recuperação de foco após uma interrupção pode ultrapassar os vinte minutos. Não vinte segundos. Vinte minutos. Num dia com dez interrupções — um número modesto para a maioria dos líderes — o custo acumulado em tempo de recuperação é matematicamente incompatível com qualquer forma de trabalho cognitivo de qualidade.

E aqui está o paradoxo: quanto mais sénior é o líder, mais o seu valor reside precisamente nas tarefas que exigem foco profundo — decisões estratégicas, diagnósticos complexos, conversas de desenvolvimento com a equipa. São exactamente essas tarefas que o multitasking destrói primeiro.

A cultura de reuniões intermináveis e notificações constantes não é uma inevitabilidade do trabalho moderno. É uma decisão de liderança — tomada, muitas vezes, por omissão. Quando ninguém decide o contrário, o sistema por defeito é o caos fragmentado. E o caos fragmentado tem uma estética de actividade que pode ser confundida, durante muito tempo, com produtividade real.

O Custo Invisível para a Equipa

Há um ângulo nesta conversa que raramente aparece nos artigos sobre produtividade: o multitasking do líder não é um problema individual. É um problema relacional e organizacional.

Quando um líder verifica o telemóvel durante uma conversa de feedback, ou responde a uma mensagem no meio de uma reunião individual, não está apenas a ser menos eficiente. Está a comunicar algo. Involuntariamente, talvez — mas com clareza suficiente para que o colaborador do outro lado da mesa o registe. A mensagem implícita é: isto não é suficientemente importante para merecer a minha atenção completa. Esse sinal tem um impacto directo na confiança, na abertura e no clima emocional da relação.

A presença executiva — um conceito frequentemente mal interpretado como carisma ou autoridade — é, na sua essência, atenção deliberada. É a capacidade de estar completamente disponível para a pessoa à tua frente, sem que o ruído do resto do dia contamine esse espaço. Não é uma qualidade inata. É uma prática. E é uma prática que o multitasking crónico corrói de forma sistemática.

O segundo vector é ainda mais subtil: o efeito de modelagem. As equipas não aprendem as normas organizacionais pelos manuais de procedimentos — aprendem-nas observando o comportamento do líder. Albert Bandura, cujo trabalho sobre aprendizagem social continua a ser uma das referências mais sólidas em psicologia organizacional, demonstrou que a modelagem comportamental é um dos mecanismos mais poderosos de transmissão de normas em grupos.

Se o líder normaliza o multitasking — em reuniões, em conversas, no calendário —, a equipa adopta-o. Não por decisão consciente, mas por imitação do que parece ser o comportamento esperado. Um padrão recorrente em equipas é o das reuniões que se tornaram rituais de presença física mas ausência mental: toda a gente está na sala, ninguém está realmente lá. Esse padrão raramente começa com a equipa.

Monotasking: o Que Líderes Eficazes Fazem Diferente

A transição do multitasking para o monotasking não é uma questão de força de vontade. Esta é, talvez, a afirmação mais importante deste artigo — e a mais contrariada pela narrativa dominante sobre produtividade.

Dizer a um líder que "deve focar-se mais" sem mudar as condições estruturais em que opera é o equivalente a pedir a alguém que durma melhor sem mudar o ambiente do quarto. A intenção existe. O resultado não aparece. Porque o problema não está na pessoa — está no sistema.

O primeiro vector de mudança é o design do calendário. Não como uma questão de gestão de tempo no sentido técnico, mas como uma declaração de prioridades. Um calendário fragmentado em blocos de trinta minutos, com reuniões encadeadas sem espaço entre elas, não é um calendário de liderança — é um calendário de reactividade. Líderes que operam com foco profundo protegem blocos de trabalho não negociáveis, onde a única tarefa possível é a tarefa mais importante. Para um sistema prático de como estruturar esses blocos, o artigo Timeboxing para Líderes: Sistema de Blocos de Tempo em 6 Passos oferece um ponto de partida concreto.

O segundo vector são as normas explícitas. O que o líder comunica — e, mais importante, o que modela — sobre disponibilidade, reuniões e foco define o que é aceitável na equipa. Organizações como a Microsoft e a Intel experimentaram políticas de manhãs sem reuniões, com resultados mensuráveis em produtividade e satisfação reportada pelas equipas. Não porque a técnica seja mágica, mas porque cria um sinal claro: o foco profundo tem valor aqui. Esse sinal, quando vem de cima, muda o que as equipas consideram normal.

O terceiro vector é o mais difícil de nomear sem soar a desenvolvimento pessoal superficial: a tolerância ao desconforto. Estar numa única tarefa difícil, sem fugir para o email ou para as notificações, exige uma capacidade de permanecer com a dificuldade que o multitasking crónico atrofia. Cal Newport, no seu trabalho sobre deep work, argumenta que esta capacidade é cada vez mais rara — e, por isso, cada vez mais valiosa. A questão não é técnica. É sobre o que o líder está disposto a proteger. Para um framework aplicado a contextos de liderança, o artigo Como Aplicar Deep Work na Liderança: Framework Científico em 4 Etapas desenvolve este ponto com mais detalhe.

A eficácia na liderança não se mede pela quantidade de coisas que o líder consegue gerir em simultâneo. Mede-se pela qualidade das decisões, pela profundidade das relações e pela clareza estratégica que consegue manter sob pressão. Nenhuma dessas coisas sobrevive à fragmentação crónica.

Perguntas Frequentes

O multitasking realmente prejudica a produtividade?

Sim — e de forma mais significativa do que a maioria das pessoas assume. O cérebro não processa duas tarefas cognitivas complexas em simultâneo: alterna entre elas, com um custo neurológico real a cada transição. Investigação sobre switching costs e attention residue demonstra que este custo se acumula ao longo do dia, degradando a qualidade do pensamento, a velocidade de decisão e a capacidade de reter informação. O paradoxo é que o multitasking cria uma sensação subjectiva de produtividade enquanto reduz a produtividade real.

Como parar de fazer multitasking no trabalho?

A transição começa por redesenhar o ambiente antes de tentar mudar o comportamento. Mudanças de intenção sem mudanças estruturais têm taxas de recaída muito elevadas — porque o sistema continua a criar as mesmas pressões. Isso implica eliminar notificações durante blocos de trabalho dedicados, redesenhar o calendário para proteger tempo de foco profundo e comunicar explicitamente à equipa o que mudou e porquê. A força de vontade é o último recurso, não o primeiro.

Multitasking e liderança: qual é o impacto na equipa?

O impacto opera em dois níveis. No nível relacional, quando um líder faz multitasking durante conversas individuais ou sessões de feedback — verificando o telemóvel, respondendo a mensagens — envia um sinal implícito de que a conversa tem baixa prioridade. Isso erode confiança e deteriora o clima emocional ao longo do tempo. No nível cultural, as equipas tendem a replicar os comportamentos do líder: se o multitasking é normalizado no topo, torna-se a norma em toda a equipa — com custos colectivos que se multiplicam.

Produtividade Como Escolha Cultural, Não Como Virtude Individual

O multitasking não é um defeito de carácter. É um sintoma cultural. Organizações que medem actividade em vez de resultados, que valorizam a aparência de ocupação acima da qualidade do pensamento, criam as condições exactas para que o multitasking prospere — e para que quem resiste a ele pareça menos comprometido.

Mudar isso não começa numa aplicação de produtividade nem num workshop de gestão de tempo. Começa por uma pergunta honesta sobre o que a organização está realmente a medir e o que o líder está realmente a modelar. Para aprofundar a dimensão estratégica desta escolha — o que decidir não fazer como acto de liderança —, o artigo Foco Estratégico: Como Líderes Decidem o que Não Fazer oferece uma perspectiva complementar.

Na experiência da Tribo de Líderes, em programas de desenvolvimento de liderança, um dos padrões mais recorrentes é este: líderes que chegam convencidos de que o seu problema é de gestão de tempo e descobrem, ao longo do processo, que o problema é de gestão de atenção — e que a atenção é, afinal, a forma mais concreta de expressar o que valorizam.

A pergunta que fica: o que é que o teu calendário desta semana diz sobre o que realmente consideras importante?

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Sérgio Salino
Sérgio Salino

Fundador · Fellow do Institute of Leadership (UK)

Formador, consultor e provocador profissional em liderança e inteligência emocional. Criou o modelo TSO® e o LeaderSigna®.

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