Olá, Astronauta 🖖🧑🚀.
Espero que estejas bem.
Há uma parte da liderança que quase ninguém gosta de admitir:
vamos desiludir pessoas.
Não porque queremos.
Nem porque temos prazer nisso.
Acontece porque decidir significa escolher uma possibilidade e abandonar outras.
Escolhemos uma pessoa para uma promoção e deixamos outra de fora.
Recusamos um pedido.
Mudamos uma decisão.
Dizemos a alguém que ainda não está preparado.
Terminamos um projeto no qual uma pessoa acreditava.
Definimos um limite que alguém preferia que não existisse.
Mesmo quando a decisão é correta, alguém pode ficar desiludido connosco.
E isso custa.
A maioria de nós gosta de ser apreciada.
Gostamos que confiem em nós, que reconheçam as nossas intenções e que nos considerem boas pessoas.
Quando lideramos, essa necessidade não desaparece.
Por vezes, até aumenta.
Passamos a ter mais pessoas a observar aquilo que fazemos, a interpretar as nossas decisões e a criar expectativas sobre quem devemos ser.
É aí que a vontade de ser um líder próximo, compreensivo e humano pode transformar-se na necessidade de ser popular.
Nem sempre percebemos quando acontece.
Dizemos que estamos a proteger uma pessoa quando adiamos um feedback difícil.
Dizemos que ainda estamos a avaliar quando já sabemos qual será a decisão.
Dizemos "vamos ver" porque ainda não conseguimos dizer "não".
Mantemos uma expectativa viva porque não queremos assistir à desilusão que a verdade vai provocar.
Durante algum tempo, parece resultar.
A pessoa continua motivada.
A conversa difícil não acontece.
O ambiente mantém-se agradável.
E nós continuamos a ser vistos como alguém acessível e compreensivo.
Só que o desconforto que evitamos não desaparece.
Acumula-se.
Imagina uma pessoa que acredita que será promovida.
O líder já percebeu que isso não vai acontecer, mas não consegue dizer-lho claramente.
Em vez disso, fala sobre o futuro, elogia o trabalho, pede paciência e deixa algumas frases suficientemente ambíguas para manter a esperança.
Meses depois, outra pessoa é escolhida.
A desilusão já não vem apenas da promoção que não aconteceu.
Vem também da sensação de que ninguém teve coragem para dizer a verdade a tempo.
O líder evitou uma conversa difícil.
A pessoa perdeu meses a tomar decisões com base numa possibilidade que nunca existiu realmente.
Isto não é empatia.
É desconforto adiado.
E, muitas vezes, esse adiamento protege mais o líder do que a pessoa.
Há outra consequência.
Quando um líder quer ser apreciado por todos, começa a ter dificuldade em aplicar critérios de forma consistente.
Tolera atrasos porque conhece os problemas pessoais daquela pessoa.
Evita corrigir um comportamento porque não quer criar tensão.
Aceita mais uma exceção.
Depois outra.
Cada situação pode ter uma explicação perfeitamente legítima.
Mas há uma equipa inteira a observar.
Enquanto uma pessoa recebe compreensão, outra continua a cumprir aquilo que foi combinado.
Enquanto alguém é continuamente protegido das consequências, outras pessoas começam a perguntar para que servem as regras.
Ser compreensivo com uma pessoa pode tornar-nos injustos com todas as outras.
Naturalmente, também não estou a defender uma liderança fria, distante ou incapaz de considerar aquilo que as pessoas estão a viver.
Há líderes que usam a palavra "coragem" para justificar brutalidade.
Dizem que são frontais quando são apenas descuidados.
Dizem que as pessoas precisam de ouvir a verdade quando, na realidade, querem descarregar frustração sem medir o impacto.
Desiludir alguém não nos dá autorização para tratar essa pessoa sem dignidade.
Podemos dizer não e explicar porquê.
Podemos dar feedback difícil sem humilhar.
Podemos tomar uma decisão que alguém não compreende e continuar disponíveis para conversar.
Podemos reconhecer a desilusão sem mudar uma decisão apenas para fazer desaparecer o desconforto.
Talvez seja aqui que a inteligência emocional se torna particularmente importante.
Não apenas para compreendermos aquilo que a outra pessoa está a sentir.
Também para conseguirmos suportar aquilo que sentimos quando alguém fica desiludido connosco.
Culpa.
Medo de conflito.
Necessidade de aprovação.
Vontade de voltar atrás apenas para que a relação regresse rapidamente ao normal.
Um líder não precisa de gostar de provocar desilusão.
Seria estranho se gostasse.
Precisa, porém, de conseguir permanecer presente quando ela acontece.
Ouvir sem se defender imediatamente.
Explicar sem inventar desculpas.
Reconhecer o impacto sem prometer aquilo que não pode cumprir.
E aceitar que, por vezes, alguém pode considerar-nos injustos mesmo depois de termos tentado decidir com seriedade.
Liderar não nos permite controlar a forma como todas as pessoas nos veem.
Talvez essa seja uma das partes mais difíceis.
Podemos controlar a clareza dos critérios.
A honestidade da conversa.
O respeito com que tratamos alguém.
A consistência entre aquilo que dizemos e aquilo que fazemos.
Não podemos garantir que ninguém ficará desiludido.
Por isso, talvez a pergunta não seja:
"Como posso tomar esta decisão sem desiludir ninguém?"
Talvez devamos perguntar:
"Estou a adiar esta decisão para proteger esta pessoa ou para proteger a imagem que ela tem de mim?"
A resposta pode ser desconfortável.
Mas provavelmente será mais útil do que outro "vamos ver".
Abraço, 🧑🚀
S.
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