Olá, Astronauta 🖖🧑🚀.
Espero que estejas bem.
Vou começar por confessar uma coisa que não deve surpreender ninguém:
➡️ Eu não gosto de toda a gente!
Pronto, já disse...
Mesmo depois de ver alguns olhares de julgamento, mantenho o que disse!
Também existem pessoas que não gostam de mim.
Parece-me justo.
Ainda assim, quando falamos de liderança, falamos frequentemente de "gostar de pessoas" como se essa fosse uma condição obrigatória para liderar.
Não é.
As pessoas são maravilhosas.
As pessoas também são irritantes, confusas, imprevisíveis, contraditórias e, por vezes, profundamente difíceis de aturar.
Eu incluído.
E quem lidera não escolhe trabalhar apenas com pessoas com quem gostaria de jantar.
Vai encontrar pessoas que falam demasiado.
Pessoas que fazem perguntas quando já só queremos terminar a reunião.
Pessoas que discordam de nós.
Pessoas que trabalham de uma forma completamente diferente da nossa.
Pessoas que nos lembram alguém de quem não gostamos, mesmo que nunca percebamos bem porquê.
O problema começa quando aquilo que sentimos por uma pessoa entra, silenciosamente, na forma como avaliamos o seu trabalho.
A mesma atitude pode parecer confiança numa pessoa de quem gostamos e arrogância noutra.
O mesmo erro pode ser um dia menos bom para alguém com quem temos afinidade e uma prova de incompetência para alguém que já nos irritava.
A mesma discordância pode ser pensamento crítico quando vem da pessoa certa e falta de alinhamento quando vem da pessoa errada.
A simpatia tem esta capacidade maravilhosa de se disfarçar de avaliação objetiva.
E a antipatia também.
Começamos a construir explicações muito inteligentes para justificar decisões que, em boa verdade, já tinham sido tomadas emocionalmente.
Damos mais tempo a uns.
Mais contexto.
Mais oportunidades.
Acreditamos mais depressa nas suas intenções.
Com outros, a margem desaparece.
Um erro confirma aquilo que já pensávamos.
Uma frase é interpretada da pior forma possível.
Uma hesitação passa a ser falta de competência.
E tudo isto pode acontecer sem que o líder tenha consciência.
Porque ninguém entra numa reunião a pensar:
➡️ "Hoje vou ser injusto com aquela pessoa de quem não gosto."
A injustiça raramente se apresenta dessa forma.
Aparece numa interrupção.
Num convite que não é feito.
Numa ideia que só passa a ser boa quando é repetida por outra pessoa.
Num feedback mais duro.
Numa oportunidade entregue sempre aos mesmos.
Liderar alguém de quem gostamos é relativamente fácil.
Confiamos mais.
Temos mais paciência.
Interpretamos melhor.
Liderar alguém que nos provoca desconforto exige outra coisa.
Exige perceber o que aquela pessoa desperta em nós antes de decidirmos o que fazer com ela.
Exige distinguir comportamento de personalidade.
Factos de interpretações.
Desempenho de afinidade.
Uma pessoa pode ser difícil e extremamente competente.
Pode ser agradável e não entregar resultados.
Pode discordar de nós e estar certa.
Pode irritar-nos por tocar precisamente num ponto que ainda não queremos ver.
Inteligência emocional também é isto.
Perceber que uma emoção contém informação, mas não contém necessariamente a verdade toda.
A irritação que sinto é minha.
Posso escutá-la.
Posso tentar compreendê-la.
Mas não lhe devo entregar, sem questionar, a avaliação, o futuro ou as oportunidades daquela pessoa.
Talvez a justiça de um líder se veja precisamente aqui.
Na capacidade de tratar com dignidade quem não escolheria para amigo.
De reconhecer competência sem precisar de afinidade.
De corrigir sem castigar.
De ouvir uma boa ideia mesmo quando não gosta de quem a teve.
Pensa agora numa pessoa com quem trabalhas e de quem não gostas particularmente.
➡️ Que margem lhe dás quando erra?
➡️ Como interpretas aquilo que ela diz?
➡️ Que oportunidades ainda não lhe deste?
E, como pergunta final, deixo a seguinte:
➡️ Será que essa pessoa já percebeu que não gostas dela?
Talvez, sim. Mesmo que nunca lho tenhas dito.
Ou talvez, não...
Mais vale, se calhar, pensar sobre isso.
Abraço, 🧑🚀
S.
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