Coaching

Por que 40% dos Coaches Executivos Perdem Credibilidade (E Como

Há quinze anos que trabalho com líderes e executivos, e uma das realidades mais duras que aprendi é esta: cerca de 40% dos processos de coaching executivo falham não por falta...

Sérgio Salino 20 de abril de 2026 9 min read
Por que 40% dos Coaches Executivos Perdem Credibilidade (E Como

O problema não está nos modelos — o GROW funciona, o CLEAR também. O problema está na pessoa que os aplica e na forma como o faz. E isso faz-me uma confusão tremenda, porque estamos a falar de uma profissão que pode transformar carreiras e organizações inteiras.

1. Coach Sem Experiência Empresarial Real

Este é o erro mais comum e mais devastador. Já vi coaches com certificações impressionantes tentarem aconselhar um director financeiro sobre gestão de equipas quando nunca geriram mais de três pessoas na vida.

A credibilidade no coaching executivo não vem apenas do conhecimento teórico. Vem da capacidade de olhar um executivo nos olhos e dizer: "Eu já estive aí." Quando um CEO te conta que está a lutar com uma decisão de reestruturação que vai afetar 200 famílias, precisa de alguém que compreenda o peso dessa responsabilidade — não apenas as técnicas para lidar com stress.

Nos programas que desenvolvemos, uma das coisas que mais valorizo é a experiência real de liderança dos nossos formadores. Não é snobismo — é necessidade prática.

2. Aplicar Modelos Sem Adaptar ao Contexto

O modelo GROW é fantástico. Mas aplicá-lo da mesma forma numa startup tecnológica e numa empresa familiar centenária é uma receita para o desastre. Cada organização tem a sua cultura, os seus códigos não escritos, as suas dinâmicas de poder.

Vi um coach tentar aplicar técnicas de "comunicação aberta" numa cultura empresarial tradicionalmente hierárquica. O resultado? O executivo perdeu credibilidade com a sua equipa e o processo foi interrompido ao fim de dois meses.

Marshall Goldsmith tem razão quando diz que "o que te trouxe até aqui não te levará até lá", mas isso aplica-se também aos coaches: o que funciona num contexto pode ser tóxico noutro.

3. Confundir Coaching Com Terapia

Este é um erro subtil mas perigoso. Coaching executivo tem um foco claro: melhorar performance e desenvolver competências de liderança. Quando um coach começa a explorar traumas de infância ou questões pessoais profundas, está a sair da sua área de competência.

Já vi processos de coaching transformarem-se em sessões de terapia improvisada, com coaches sem formação psicológica a tentar "curar" executivos. O resultado é sempre o mesmo: confusão, perda de foco nos objetivos empresariais e, frequentemente, danos emocionais.

Um bom coach executivo sabe quando referenciar para um psicólogo ou terapeuta. É uma questão de ética profissional.

4. Não Estabelecer Métricas Claras de Sucesso

Aqui está uma pergunta simples que devias fazer a qualquer coach: "Como vamos medir o sucesso deste processo?" Se a resposta for vaga ou focada apenas em "sentir-se melhor", tens um problema.

Coaching executivo tem de ter impacto mensurável: melhoria na avaliação 360º, aumento do engagement da equipa, melhores resultados financeiros da área, redução do turnover. Sem métricas claras, é impossível distinguir coaching eficaz de conversas caras.

Nos processos em contextos semelhantes, estabelecemos sempre KPIs específicos no início. Pode ser desconfortável, mas é a única forma de garantir accountability real.

5. Ignorar a Cultura Organizacional

Este erro mata mais processos de coaching do que qualquer outro. Um coach pode ser brilhante tecnicamente, mas se não compreender a cultura da organização onde está a trabalhar, vai dar conselhos que são impossíveis de implementar.

Um exemplo típico é um caso onde um coach aconselhou um director a ser "mais colaborativo" numa empresa com uma cultura de competição interna feroz. O director tentou implementar as sugestões e foi visto como fraco pela administração. Resultado: foi despedido seis meses depois.

A cultura organizacional não é um obstáculo a ultrapassar — é o contexto dentro do qual o coaching tem de funcionar.

O Que Aprendi Sobre Credibilidade Real

Depois de anos a trabalhar com líderes, percebi que credibilidade no coaching executivo assenta em três pilares: experiência, humildade e resultados.

Experiência não significa apenas anos de coaching — significa compreensão visceral do que é liderar sob pressão. Quando trabalho com um CEO que está a gerir uma crise, a minha credibilidade não vem das minhas certificações, mas da minha capacidade de compreender a complexidade das suas decisões.

Humildade é saber quando não sabemos. Já disse "não sei" mais vezes do que gostaria de contar, mas isso criou mais confiança do que qualquer resposta brilhante que inventasse. Um executivo precisa de saber que pode confiar na honestidade do seu coach.

Resultados falam por si. Não são apenas testemunhos bonitos — são mudanças concretas na forma como o líder opera e nos resultados que consegue.

"A diferença entre um coach credível e um coach técnico é a mesma que existe entre um médico experiente e um estudante de medicina: ambos conhecem a teoria, mas só um sabe como aplicá-la quando as coisas correm mal."

Uma das coisas que mais me marca nos programas de certificação que desenvolvemos é ver a transformação que acontece quando alguém com experiência real de liderança aprende as ferramentas de coaching. É como ver alguém descobrir uma linguagem para algo que sempre soube instintivamente.

Como Distinguir Coaching de Qualidade

Se estás a considerar trabalhar com um coach executivo — ou se és um líder de RH a avaliar fornecedores — há sinais claros que podes procurar.

Red flags: Promessas de transformação rápida, falta de experiência empresarial comprovada, incapacidade de explicar a metodologia de forma simples, ausência de referências verificáveis, preços demasiado baixos ou demasiado altos sem justificação clara.

Green flags: Perguntas inteligentes sobre o contexto organizacional, experiência comprovada em liderança, certificações reconhecidas (ICF, EMCC), processo estruturado com métricas claras, referências de outros executivos, capacidade de adaptar a abordagem ao contexto específico.

Mas há um teste simples que nunca falha: pergunta ao coach para te contar uma história de um processo que correu mal e o que aprendeu com isso. Se não conseguir responder com honestidade e especificidade, não é o coach certo para ti.

A química pessoal também é fundamental. Podes ter o melhor coach técnico do mundo, mas se não há confiança e conexão genuína, o processo não vai funcionar. É como um casamento — a competência técnica é importante, mas sem química, não há magia.

Mentoria vs Coaching: Quando Usar Cada Um

Aqui está uma confusão que vejo constantemente: pessoas que precisam de mentoria a procurar coaching, e vice-versa. São abordagens diferentes para necessidades diferentes.

Coaching é sobre desenvolver as tuas próprias respostas. Um bom coach faz perguntas poderosas que te levam a descobrir soluções que já estão dentro de ti. É um processo de autodescoberta facilitada. O coach não te diz o que fazer — ajuda-te a descobrir o que fazer.

Mentoria é sobre partilhar experiência e conhecimento direto. Um mentor já passou pelo caminho que estás a percorrer e pode partilhar insights, contactos, e avisos sobre armadilhas a evitar. O mentor diz-te o que fazer baseado na sua experiência.

Quando é que precisas de cada um? Se estás numa posição nova e precisas de desenvolver competências específicas de liderança, coaching pode ser a resposta. Se estás numa indústria nova ou numa fase de carreira que nunca experimentaste, mentoria pode ser mais valiosa.

Muitas vezes, a combinação dos dois é poderosa. Nos programas que desenvolvemos, vemos frequentemente líderes a beneficiar de coaching para desenvolver competências emocionais e mentoria para navegar desafios específicos da indústria.

A chave está em ser honesto sobre o que realmente precisas. E isso, curiosamente, é algo que um bom coach te pode ajudar a descobrir.

Perguntas Frequentes

Qual a diferença entre coaching executivo e mentoria?

Coaching executivo foca em desenvolver as tuas competências através de perguntas poderosas que te levam a descobrir as tuas próprias soluções. O coach não te diz o que fazer — facilita o teu processo de autodescoberta. Mentoria, por outro lado, é sobre partilhar experiência e conhecimento direto de alguém que já passou pelo caminho que estás a percorrer. Ambos são valiosos, mas em contextos diferentes: coaching para desenvolver competências, mentoria para navegar desafios específicos baseados na experiência de outros.

Como escolher um coach executivo credível?

Procura certificações reconhecidas como ICF ou EMCC, mas mais importante ainda é a experiência comprovada em liderança empresarial. Um bom coach executivo deve ter vivido os desafios que tu enfrentas. Pede referências de outros executivos e verifica-as. A química pessoal é fundamental — se não há confiança e conexão genuína, o processo não funcionará. Finalmente, pergunta como vão medir o sucesso do processo: se a resposta for vaga, é um red flag.

Quanto tempo demora um processo de coaching executivo?

Tipicamente, um processo sólido de coaching executivo demora entre 6 a 12 meses, com sessões quinzenais ou mensais. Resultados iniciais podem aparecer em 2-3 meses — mudanças na forma como abordas situações ou na clareza das tuas decisões. No entanto, mudanças profundas de comportamento e liderança requerem tempo e prática consistente. É um investimento a médio prazo, não uma solução rápida. A chave está na consistência e no compromisso com o processo.

No final do dia, coaching executivo de qualidade não é sobre aplicar fórmulas mágicas ou técnicas revolucionárias. É sobre criar um espaço seguro onde líderes podem explorar os seus desafios mais complexos com alguém que compreende genuinamente o peso das suas responsabilidades.

A pergunta que te deixo é esta: quando foi a última vez que tiveste uma conversa verdadeiramente honesta sobre os teus desafios de liderança? Se a resposta for "há muito tempo", talvez seja altura de procurar ajuda. Mas escolhe bem — a tua credibilidade como líder pode depender disso.

coaching executivo mentoria coaching de liderança desenvolvimento de líderes coaching empresarial tribo de líderes
Sérgio Salino
Sérgio Salino

Fundador · Fellow do Institute of Leadership (UK)

Formador, consultor e provocador profissional em liderança e inteligência emocional. Criou o modelo TSO® e o LeaderSigna®.

Ver perfil e artigos →